Entenda as doenças ginecológicas: Endometriose e Síndrome do Ovário Policístico (SOP)

16/03/2020 5 min de leitura

#EntrevistaComEspecialista

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Março é o mês da Conscientização da Endometriose, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 7 milhões de mulheres no Brasil possuem a doença. As mulheres que convivem com a condição têm várias áreas de suas vidas afetadas e convivem diariamente com a dor.

Para falar um pouco melhor sobre a doença e alertar sobre a importância da prevenção e do diagnóstico de doenças ginecológicas que afetam a vida de milhões de mulheres no mundo todo, entrevistamos a Ginecologista e Obstetra, Karinne Azin.

Além de abordar as características e tratamentos da endometriose, a médica ainda tratará de outra doença muito comum na vida das mulheres: a Síndrome do Ovário Policístico (SOP). A síndrome chega a atingir 10% das mulheres em idade reprodutiva e traz transtornos como dores, irregularidade menstrual, acnes e muitos outros.

Seu corpo é seu lar, e é sempre bom ressaltar a importância de conhecê-lo. Perceba cada parte do seu corpo, observe como ele reage a determinadas situações, entenda como ele se comporta em diferentes períodos de tempo, esteja atenta às mudanças e aos sinais que ele dá. Quanto melhor você conhecer seu corpo, mais facilmente conseguirá observar os sintomas de uma possível doença ginecológica.

ENDOMETRIOSE


O que é a Endometriose e quais os sintomas da doença?

Endometriose é uma doença ginecológica crônica que, até o presente momento, não tem cura. Ela atinge, em média, 15% das mulheres em idade reprodutiva. As áreas atingidas são o baixo ventre, mas a doença pode, principalmente, atingir ovários, trompas, a parte posterior do útero, além de outros órgãos como bexiga e intestino. Os principais sintomas estão relacionados à dor: dor durante a menstruação, dor durante a relação sexual, dor para evacuar durante o período menstrual, ou mudança do hábito intestinal como diarreia ou constipação durante o período menstrual, dor para urinar e infertilidade.


Sistema reprodutor feminino com a presença da endometriose
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A mulher nasce com a doença ou ela pode aparecer a partir de uma certa idade?

Algumas mulheres já nascem com essa predisposição à doença, mas nós não sabemos, exatamente, qual é a causa. Hoje em dia, acreditamos que é uma doença multifatorial ligada a fatores genéticos, imunológicos e ambientais – como a alimentação. Esses fatores contribuem para a causa da endometriose. Algumas mulheres, desde a primeira menstruação, já começam a ter os primeiros sinais da doença, muito provavelmente indicando que ela já nasceu com a tendência genética de ter a doença. Porém, outras mulheres só começam a desenvolver os primeiros sintomas a partir de uma certa idade, muito provavelmente após alguma cirurgia uterina. 

Quando as mulheres costumam descobrir a doença?

Esse é um grande problema pois o diagnóstico é tardio. A estimativa mundial, no caso de países de primeiro mundo, é que o diagnóstico, desde o primeiro sintoma até a paciente ter, de fato, a doença, demora em torno de 8 a 10 anos. Lembrando que estamos falando de países desenvolvidos, imaginem em países subdesenvolvidos, como essa demora tem capacidade de ser ainda maior. Então, as mulheres costumam descobrir a doença, apesar dela começar desde a primeira menstruação, em torno de 30 anos.

Conseguimos melhorar a endometriose, em algum nível, com alimentação balanceada e exercícios físicos?

Sim. Como a endometriose se trata de uma doença inflamatória, os estudos mais recentes mostram que com o consumo de alimentos anti-inflamatórios é possível melhorar a doença. Além disso, qualquer atividade física também melhora a endometriose.

Como a doença afeta a vida sexual da mulher?

A vida sexual da mulher é completamente prejudicada pela endometriose, quer seja por essa mulher ter dor durante a relação sexual, atrapalhando assim o intercurso sexual, ou seja porque ela tem outros problemas na função sexual: diminuição de lubrificação, diminuição do desejo sexual e diminuição da qualidade do relacionamento em si. Essa mulher tem dor e sintomas psicológicos, como ansiedade e depressão, que impactam qualquer relacionamento interpessoal, afetando também seu relacionamento com parceiro ou parceira. 

Existe alguma relação entre endometriose e os tipos de câncer do sistema reprodutor feminino?

É difícil responder pois não podemos afirmar que “sim” ou que “não”. Os estudos científicos mostram que quem tem endometriose tem um maior risco de ter alguns tipos de câncer não-ginecológico, como linfoma não-hodgkin, câncer de pele e outros tipos. Além disso, quem tem endometriose também tem um risco maior de ter câncer de ovário, por exemplo. Porém, as pacientes não precisam ficar apavoradas porque, apesar de aumentar esse risco, ele ainda é um risco baixo.

SÍNDROME DO OVÁRIO POLICÍSTICO (SOP)


O que é a Síndrome do Ovário Policístico (SOP)? Quais as causas e os principais sintomas?

A SOP é caracterizada por várias alterações hormonais que vão gerar modificações em relação à regularidade menstrual, ou seja, a paciente apresenta um ciclo menstrual longo, geralmente maior que 35 dias. Além disso, ela apresenta sintomas ou sinais de excesso de hormônio masculino, como excesso de pilificação em lugares onde a mulher geralmente não tinha tantos pelos, ou ainda  apresenta um achado de ovário micropolicístico no ultrassom.

A causa do ovário policístico, geralmente, está relacionada com a resistência periférica à insulina, portanto, essas pacientes têm o que a gente chama de síndrome metabólica associada, condição na qual elas apresentam um excesso de peso associado.

Quando a mulher tem cistos, significa dizer que ela tem a síndrome?

As mulheres têm cistos no ultrassom transvaginal sem ter a síndrome. Para ter a síndrome, ela precisa ter a doença do ovário micropolicístico, ou seja, dos três critérios citados anteriormente, (irregularidade menstrual, excesso do hormônio masculino e o achado do ovário micropolicístico no ultrassom) ela precisa ter dois desses três sintomas. E isso caracteriza a síndrome.

Mulheres que possuem SOP costumam ter dificuldade para engravidar? 

Tendo em vista que elas não ovulam normalmente – consequentemente possuem uma menstruação irregular – elas podem sim ter uma maior dificuldade para engravidar. Porém, isso não significa que elas não vão conseguir engravidar. 

A síndrome tem cura? Qual o principal modo de tratá-la?

A síndrome tem cura sim, e o principal modo de tratá-la é a mudança no estilo de vida. Então, é mudança no hábito alimentar e atividades físicas.

Qual a função de cada hormônio no corpo da mulher? E como funcionam os hormônios quando a mulher possui a síndrome?

Nosso corpo funciona em perfeita harmonia, então a gente precisa de vários hormônios funcionando em ordem e em quantidades ideais no corpo. Imagina que nós temos uma orquestra em que cada músico está presente e que existe um maestro. Basicamente, na síndrome do ovário policístico, os hormônios estão em quantidade adequada e sendo produzidos corretamente, porém, o metabolismo deles não, ou seja, o maestro não está funcionando adequadamente. Então, na síndrome, os hormônios se encontram basicamente da seguinte maneira: testosterona está elevada, a progesterona não está sendo produzida adequadamente e, portanto, o estrógeno fica relativamente mais ativo.

É possível evitar a síndrome? Como as mulheres devem se cuidar, desde os primeiros anos de vida, para evitar a condição?

É possível evitá-la sim. Como falado anteriormente, ela pode ser evitada através de mudanças de estilo de vida. Uma excelente alimentação, atividade física regular, controle adequado do peso. Hoje nós vivemos uma epidemia de obesidade, estamos tão acostumadas com a obesidade que achamos que o excesso de peso é o normal, mas isso traz várias repercussões: resistência à insulina, gordura  no fígado, aumento de colesterol e triglicerídeos, pré-diabete. Temos que nos cuidar para evitar vários problemas, inclusive a síndrome do ovário policístico.

Então é possível controlar a doença somente com a alimentação e exercícios físicos?

Sim! O tratamento é feito com a mudança de estilo de vida! Já o tratamento com hormônios é sintomático, ele só vai tratar os sintomas, como a irregularidade menstrual. Mas o que trata a síndrome mesmo é a mudança do estilo de vida.

Dados da profissional:
Karinne Azin 
CRM 10.236 RQE 8761/8808
Especialista em Ginecologia e Obstetrícia  e em Endoscopia Ginecológica pela Febrasgo e Sobracil. Residência Médica em Uroginecologia-Estudo urodinâmico  e Endoscopia Ginecológica pelo HGCC. Residência médica em Ginecologia e Obstetrícia pela UFC-MEAC.